crédito habitação

Crédito habitação: taxa fixa ou taxa variável — o que escolher em 2026

A escolha entre taxa fixa e taxa variável no crédito habitação pesa décadas nas nossas finanças. Percebe o que está por trás do spread, da Euribor e da TAEG antes de assinar a escritura.

Crédito habitação: taxa fixa ou taxa variável — o que escolher em 2026

Assinar um contrato de crédito habitação é, para a maioria dos portugueses, o compromisso financeiro mais longo que alguma vez vão assumir — trinta, às vezes quarenta anos a pagar uma prestação mensal ao banco. E, no meio de toda a papelada, avaliações e idas ao balcão, há uma decisão que separa quem dorme descansado de quem passa a vida a olhar para o spread da Euribor: taxa fixa ou taxa variável? Não há resposta certa para toda a gente. Há, isso sim, uma resposta certa para o perfil de quem está a assinar, e é sobre isso que vale a pena parar e pensar antes de ir ao notário.

O que está realmente a comprar quando escolhe um regime de taxa

A taxa variável em Portugal está indexada à Euribor — normalmente a 6 ou a 12 meses, com a Euribor a 3 meses a ir perdendo terreno nos novos contratos desde que os bancos passaram a atualizar as prestações com menos frequência. A esta taxa de referência soma-se o spread, que é a margem que o banco cobra e que depende do seu perfil de risco, do rácio entre o valor do empréstimo e o valor do imóvel (o famoso LTV) e de quantos produtos associados aceita contratar — conta ordenado, seguro de vida, seguro multirriscos habitação, cartão de crédito. Bancos como a Caixa Geral de Depósitos, o Millennium bcp, o Santander Totta, o Novo Banco ou o BPI publicam tabelas de spread que, em 2026, andam tipicamente entre 0,75% e 1,60% para clientes com bom perfil e LTV até 80%. Abaixo desse spread, tudo o resto — a componente Euribor — sobe e desce com o mercado, sem que o banco tenha qualquer influência direta sobre esse valor.

A taxa fixa funciona de forma completamente diferente: o banco calcula, no momento da assinatura, uma taxa que se mantém inalterada durante um período contratado — que pode ser 5, 10, 20 anos ou a totalidade do prazo do empréstimo. Essa taxa incorpora, à partida, a expectativa do banco sobre a evolução futura das taxas de juro, o que normalmente a coloca acima da soma Euribor + spread do momento da assinatura. Está, no fundo, a pagar um prémio por eliminar a incerteza. Isto não é um detalhe técnico menor — é o cerne de toda a decisão, e quem trata a taxa fixa como se fosse "só mais cara" está a ignorar o que essa diferença de preço compra.

A taxa variável: mais barata agora, imprevisível depois

Quem escolhe taxa variável está, essencialmente, a apostar que consegue absorver oscilações na prestação mensal sem desequilibrar o orçamento familiar. Nos períodos em que a Euribor desce, a prestação acompanha — e quem contratou o crédito nos anos de taxas mais baixas sentiu isso na pele quando a Euribor subiu de forma acentuada entre 2022 e 2023, obrigando famílias com prestações de 500 euros a verem esse valor passar para 700 ou 800 euros em poucos meses. O inverso também acontece: quando a Euribor recua, a prestação alivia sem que seja preciso renegociar nada com o banco.

A vantagem mais concreta da taxa variável é o preço de entrada. Numa fase em que a Euribor está relativamente contida, a TAEG de um crédito variável fica normalmente abaixo da TAEG equivalente em regime fixo, o que se traduz em prestações mais baixas nos primeiros anos. Para quem tem alguma folga orçamental — ou espera vê-la crescer, por exemplo com uma progressão de carreira previsível — essa poupança inicial pode compensar largamente o risco de subidas futuras. Para quem já está no limite do esforço financeiro recomendado pelo Banco de Portugal, que desaconselha taxas de esforço acima de 35% a 40% do rendimento líquido, a taxa variável é um risco que poucas famílias deveriam correr.

A taxa fixa: previsibilidade tem um preço, e vale a pena pagá-lo

Recomendamos taxa fixa a qualquer família cuja prestação já ronde o limite confortável do orçamento mensal. Não há ambiguidade nesta recomendação: se um aumento de 150 ou 200 euros na prestação mensal significaria ter de cortar noutras despesas essenciais, a certeza da taxa fixa vale largamente o spread adicional que se paga por ela. A previsibilidade não é um luxo — é gestão de risco básica, e é exatamente isso que muitos consumidores subestimam quando comparam apenas a prestação inicial dos dois regimes.

Há ainda a taxa mista, que combina um período inicial fixo — normalmente entre 5 e 10 anos — com o regresso à taxa variável depois disso. É uma opção intermédia interessante para quem quer proteger-se nos anos em que o orçamento familiar está mais apertado, tipicamente logo após a compra, quando as obras de adaptação ou a mobília ainda estão a ser pagas, e aceita reavaliar o risco mais tarde, quando o crédito já tiver amortizado uma fatia significativa do capital. Evite, no entanto, escolher a taxa mista apenas porque parece "o melhor dos dois mundos" sem calcular o que acontece à prestação no dia em que o período fixo termina — muitos consumidores fazem essa transição sem perceber que vão voltar a estar expostos à Euribor exatamente quando o capital em dívida ainda é elevado.

O que os bancos portugueses estão a praticar

Vale a pena visitar mais do que um balcão antes de decidir. As condições de crédito habitação em Portugal não são uniformes: um cliente com 30 anos, rendimento estável e LTV de 70% pode receber propostas com spreads bastante diferentes consoante negoceia com a Caixa Geral de Depósitos, o BPI ou o Novo Banco, sobretudo se aceitar domiciliar o ordenado e contratar o seguro de vida através do próprio banco. Essa diferença de spread, multiplicada por trinta anos de prestações, pode representar milhares de euros — e é por isso que faz sentido pedir simulações formais a pelo menos três instituições antes de assinar qualquer proposta vinculativa.

(É aqui que vale abrir um parêntese pessoal: a maior parte das pessoas com quem falamos sobre este tema já teve, nalgum momento, a experiência frustrante de receber uma simulação inicial atrativa que, depois da avaliação do imóvel e da análise final de risco, acabou por subir de spread sem grande explicação. Peça sempre a ficha de informação normalizada europeia, a FINE, por escrito — é o único documento que vincula o banco às condições apresentadas.)

Como decidir sem se perder em folhas de cálculo

A pergunta certa não é "qual regime é mais barato hoje", mas sim "que regime consigo suportar se as condições piorarem". Faça as contas com a prestação da taxa variável a subir 30% — é um cenário realista, já visto em Portugal na última década — e pergunte-se se o orçamento familiar aguenta. Se a resposta for não, a taxa fixa não é uma escolha conservadora a mais: é a única escolha responsável. Se a resposta for sim, com margem confortável, a taxa variável pode compensar ao longo do tempo, sobretudo em créditos com prazos mais curtos, onde a exposição ao risco de subida das taxas é menor.

O prazo do empréstimo também pesa nesta equação, e é frequentemente esquecido. Um crédito a 40 anos amplifica o impacto de qualquer variação da Euribor, simplesmente porque há mais tempo de exposição — enquanto um crédito a 15 ou 20 anos limita esse risco de forma natural, ainda que com prestações mensais mais elevadas. Reduzir o prazo, quando o orçamento permite, é muitas vezes uma forma mais eficaz de controlar o risco do que discutir meio ponto percentual de spread.

Não existe um regime universalmente melhor — existe o regime que corresponde à sua almofada financeira real, não à que imagina ter num ano bom. Peça simulações concretas, leia a FINE com atenção, compare TAEG e não apenas TAN, e decida com base no cenário mais adverso que consegue razoavelmente suportar, não no mais otimista.